
A propósito do abandono escolar encontrei, na Internet, uma daquelas fichas de definição dos objectivos individuais do professor, já preenchida, com a seguinte proposta de compromisso :
“A redução do abandono escolar
O meu objectivo é ambicioso mas exequível: reduzir a taxa de abandono de tal forma que não mais de 1 aluno por turma abandone a escola. Como tenho 4 turmas, isso significa ser capaz de manter na escola pelo menos 116 dos meus 120 alunos. A minha estratégia para manter esses alunos na escola é através de frequentes contactos com os pais, sobretudo usando meios informais e alternativos, como o telemóvel, o e-mail e o sms. Com o recurso a essa comunicação informal, vou tentar consciencializar os pais para a importância de manterem os filhos na escola. Além disso, estabelecerei contactos com os serviços de apoio social e a segurança social local com o objectivo de procurar apoios adicionais para aquelas duas famílias. Tenciono, ainda, promover a vista à escola de pais bem sucedidos académica e profissionalmente, com o objectivo de conversarem com os alunos sobre a importância que a escola tem na promoção da mobilidade social.”
Texto interessante, não é?
É importante notar que o professor em causa não é director de turma, e não há indicação dos níveis das turmas, deduzindo-se que se trata de 4 turmas do 2.º ou 3.º Ciclo.
Sabendo-se das dificuldades que os directores de turma têm em chegar à conversa, apenas à conversa, com alguns encarregados de educação que não querem saber nada do percurso escolar dos seus educandos, e que muito menos se dignam ir à escola, por mais conveniente que seja a hora de atendimento, não deixa de ser caricata a estratégia que esta proposta adianta para mobilizar as famílias no combate ao abandono escolar!... É claro que não é para levar a sério!....
Obrigar os professores, a título individual, a definirem objectivos nesta área, é tão caricato como obrigar os médicos a definirem objectivos de redução do número de óbitos de doentes terminais, como se os médicos fossem uns Cristos capazes de realizarem milagres de recuperação!...
Como afirma Idalina Jorge no artigo “Abandono escolar precoce e desqualificado”, o abandono escolar é “um fenómeno cujas variáveis não são rigorosamente conhecidas: a tutela acusa os professores, os professores acusam os pais, os alunos acusam os pais, estes os professores que, por sua vez, acusam a tutela”. A resolução do abandono precoce, essa chaga que, no nosso país, apesar de vir a decrescer, atingiu ainda o valor de 31,2% em 2009 (segundo a PORDATA), não pode ser resolvida com essa estratégia de chutar as responsabilidades para terceiros, e muito menos com “estratégias” de mobilização familiar através de SMS!... Os problemas complexos não se resolvem com soluções simplista e muito menos com aspirinas.



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