
Dá cá a "nota", pá!
O Carlos, nome fictício, até gosta da escola, mas não das aulas. Como ele diz, se o curso fosse de Desporto, até se calhar iria às aulas. Mas assim não. O curso que frequenta nada lhe diz. Aliás, foi o pai que o inscreveu no curso. Por vontade dele estaria noutro curso, num que não desse grande trabalho, “assim, tipo Novas Oportunidades”, como gosta de dizer. Por isso não é de admirar que prefira passar o tempo no café da esquina, quase junto à escola, entretendo-se em actividades lúdicas com outros colegas do mesmo estilo. Ali podem fumar à vontade que ninguém os chateia; ali podem jogar às cartas que não há Pedagógico que os proíba; ali podem estar muito simplesmente em amena cavaqueira sobre … sobre os assuntos que interessam aos rapazes! Ali, não há professor, ou director de turma, ou director de curso, que lhes “matraquem” a cabeça!
Um dos professores do Carlos, informado do seu poiso habitual, decidiu ir tomar café no intervalo maior da manhã. Lá estava o Carlos, no meio de outros. Tinha acabado de faltar à primeira aula da manhã, porque acordou tarde. E já que iria levar falta, ficou por ali. Assim se justificou. O professor, pacientemente, lá tentou chamar o Carlos à razão, recomendando que fosse para as aulas. A conversa habitual que um professor tem com os alunos faltosos e pouco interessados na escola.
Curiosamente, a conversa que o professor manteve com o Carlos deve ter tocado em alguma corda sensível, porque abandonou o seu grupo do café e foi às restantes aulas da manhã. E durante dois ou três dias lá andou mais ou menos nos eixos, ainda que chegando sempre atrasado às primeiras aulas e de mãos a abanar. E como perde a noite a jogar computador, rara é a aula em que o Carlos não põe a cabeça nos braços e bate uma soneca.
A mãe do Carlos tem conhecimento pleno deste comportamento. Sabe das faltas que o Carlos dá; sabe que ele falta para estar no café com os "amigos"; sabe que o seu filho vai para as aulas sem material e sem caderno diário; sabe que o moço não está minimamente interessado no curso que frequenta; sabe que o Carlos detesta a escola, particularmente as “aulas teóricas”. Apesar disso, e afirmando que vai tomar medidas, nada de concreto faz, dizendo que o filho tem de tirar o 12.º ano e que se o Carlos falta tanto às aulas “os professores é que se devem interrogar porquê”, sugerindo deste modo que a responsabilidade pela fraca assiduidade e aproveitamento do seu rebento é dos professores!...
Por incrível que pareça, na escola onde o Carlos anda, há quem pense exactamente como a sua mãe e atribua a responsabilidade pela fraca assiduidade e aproveitamento aos professores da turma em que o moço está inserido.
- “Se o aluno falta e está numa situação de abandono escolar precoce é preciso saber porquê e o que é que está a ser feito para impedir tal situação” – dizem os burocratas de serviço, partidários de uma visão pseudo-construtivista da educação. E os desgraçados dos professores do Carlos, e de outros Carlinhos semelhantes, lá têm de preencher papelada que justifique, “muito justificadamente”, as razões porque o Carlos falta e não obtém aproveitamento escolar às suas disciplinas, indicando ainda as “estratégias de remediação” para que o menino deixe de faltar, passe a estar atento e a participar nas actividades lectivas, leve ao menos o caderno diário para as aulas, e obtenha sucesso escolar.
O que é isto?
Isto tem um nome. Isto é coacção pura e dura sobre os professores. Isto é assédio moral, ou psicológico, feito com o intuito de “apresentar resultados”, isto é, de se trabalhar para a estatística, de se forçar os professores a pactuar com os Carlinhos deste país, com o objectivo de termos um país de analfabetos funcionais e patetas alegres que se divertem com telenovelas, futebol, fado e música pimba!... Esta coação sobre os professores, consignada no actual modelo de avaliação de professores, em última instância, tem os mesmos objectivos políticos da política educativa da ditadura de Salazar e Caetano: assegurar a reprodução social e a exploração do povo.